Paixão por guitarras e heavy metal

Uma crônica real sobre minha jornada sem volta com o metal

2.124 palavras 11 min de leitura

Eu muleque na minha atual banda Evictus

A música tem três características que a definem: ritmo, melodia e harmonia. E pra sustentar isso tudo, tudo que produz música tem um timbre.

Timbre, em especial, é a característica que cada instrumento dá ao som quando uma nota é tocada. Um DÓ no piano é imediatamente reconhecível, assim como um DÓ num violino.

Talvez aí resida minha paixão extrema pela música. Não apenas boa música, mas em especial me fascina como os timbres são diversos e transmitem emoções tão diferentes pra mim quando os ouço. A textura, os harmônicos, os ruídos… tudo me faz prestar atenção e descolar do mundo em que estou. E talvez por isso eu tenha me apaixonado tanto por guitarra.

No mundo da guitarra, os sabores e cores que você pode dar ao timbre são infinitos e a distorção trouxe ao Rock And Roll, em especial, um lugar de inclusão, onde sua atitude era tão ou mais importante que sua técnica no instrumento. Lembro como se fosse hoje quando tive contato pela primeira vez com Iron Maiden, Metallica, bandas de metal extremo como Slayer, bandas mais clássicas e desconhecidas do mainstream, mas presentes nas prateleiras dos velhos amigos que permitiam que eu copiasse fitas e mais fitas cassete para ouvir em casa. Algumas eram especialmente ruidosas, como as de black metal norueguês e bandas nórdicas em geral: mas o feeling e a atitude estavam ali. Dava pra sentir isso como se eu estivesse do lado das bandas num ensaio no porão.

Meu walkman rodava dia e noite, em casa, indo pro estágio, pra escola: enquanto uma fita rodava a outra era rebobinada (menores de 25 anos PROVAVELMENTE sequer fazem ideia do que é isso) com a clássica caneta BIC adaptada para esse fim (não era apenas uma questão de passar o tempo, mas de economia das preciosas baterias AA).

Muito tempo depois, elas viraram alguns discos em MP3 (em 128 kbps) que passaram a rodar em meu CD Player Sony que tocava esse tipo de mídia. Numa época em que pochetes eram comuns, eu parecia o estranho do busão com aquele pacote grudado no cinto.

Eu ouvia de tudo que considerava (e ainda considero) boa música: música clássica, new age, pop rock, eletrônicos… mas a esmagadora maioria era heavy metal e suas mais variadas vertentes. Eu tocava com os dedos no ar, no antebraço, no sofá, na perna.

Até que um belíssimo dia (me lembro como se fosse hoje) minha mãe (ô mamãe, te amo <3), juntando todas as pratinhas do salário de professora dela, cedeu às minhas inquietações: lá estava eu no Shopping, na loja de música que eu passava namorando quase todo final de semana quando ia pro “rolezinho no varandão do Shopping Vitória”, comprando minha primeira guitarra. Uma Yamaha EG303, modelo Strato, captadores single normais, preta com escudo branco. O vendedor explica pra gente como aquela guitarra era boa e tinha um ótimo preço. Ele me entrega a guitarra e dali não saiu absolutamente NADA, exceto uns acordes com quinta que tinha tocado no violão velho que a minha mesma mãe tinha comprado pra tentar me “aquietar o facho” (gíria nordestina pra fazer a gente ficar de boa).

Minha Yamahazinha Véia de Guerra

Lá estava eu, só osso e cabeça como quase todo adolescente, com minha camisa do The Number of the Beast do Maiden (que minha mãe comprou a muito contragosto do meu pai, que achava aquela camisa “sugestiva”) com minha PRIMEIRA guitarra.

O vendedor, muito simpático mas acima de tudo perspicaz, entendendo a situação fala: “Olha, pluga aqui pra tocar”. E bota numa caixinha da Marshall pequenina, aumenta o volume até onde ele sabia que ninguém iria sair correndo com um moleque tentando tirar algum som com o máximo de distorção que ele entendia que eu iria gostar.

Aquele acorde foi mágico… e as palavras dele pra minha mãe também: “Ele já tem um amplificador? Porque pra ele tocar Heavy Metal ele vai precisar de um. E esse Marshall tá num preço excelente”.

Se você não entende de rock and roll, Marshall é uma das marcas mais icônicas do Rock and roll mundial. Sua logo faz parte do background de inúmeros artistas e shows, talvez o mais notório na época sendo o Slash do Guns e pra mim, claro, do Maiden.

Hoje, aos 45 anos, eu sinto o que minha mãe deve ter sentido naquele momento. Ela tinha ido com as moedas contadas pra comprar uma guitarra e estava prestes a sair com uma guitarra E um amplificador. Eu acho que ela teria dito que não dava ou dava ou que ficaria pra próxima, mas eu sinto que minha cara de felicidade estava impagável naquele momento.

30 minutos depois, estávamos eu e ela num busão LOTADO de saída de Shopping com a guitarra e eu abraçado à minha Marshallzinha linda e maravilhosa. 30 dias depois, acho que ela tinha se arrependido: eu não tinha fones e nem noção. Ligava a caixa com o máximo de distorção e tentava tocar tudo que eu podia das bandas que eu gostava. Naquele ponto, a internet tinha poucos lugares em que podíamos pegar tablaturas (é como se fosse uma partitura simplificada apenas com as cordas e casas do braço da guitarra pra gente tocar) e tocar coisas que nosso ouvido ainda não conseguia distinguir naqueles solos intermináveis cheios de notinhas.

Os solos e eu nunca fomos muito chegados. Talvez devido ao meu TDAH não oficial atrapalhar meu foco em coisas que demandavam um foco extremo… talvez porque eu na verdade queria mesmo era ligar a distorção, fazer o máximo de ruído possível abafando as cordas e bater cabeça me imaginando num palco como meus heróis de faces muitas vezes desconhecidas dos meus arquivos MP3.

E eu tentei, viu. Tentei e muito… Minha mãe, cansada de ouvir eu fazendo esse barulho nada agradável, decidiu me pagar aulas com um professor que morava a três ruas da nossa casa. O bairro onde morava era aquele clássico da periferia de baixa renda misturada com funcionários de banco, maquinistas da Vale e afins. Nem todo mundo podia, mas mesmo assim tentava.

O professor, depois de me ouvir atentamente, decide que nosso primeiro desafio seria tocar a música The Final Countdown, do Europe. Assenti com a cabeça tanto quanto meus olhos brilharam me imaginando tirando aquele solo absurdo e inspirado do Kee Marcello.

Foram talvez as primeiras 6 semanas mais frustrantes que tive na vida tocando guitarra. Após tirar a música em si, base e refrão, já estava me achando. Eu já estava tocando de ouvido minhas bandas preferidas de Black Metal, Grunge (muuuuito Nirvana), algumas coisas perdidas de Heavy metal, partezinhas de músicas de videogame. Porém, tocar um solo como esse do Kee te desafia de diversas maneiras diferentes e com um professor como o que eu tinha, que achava genuinamente que eu tiraria isso em menos de 2 meses, foi, antes de desastroso, uma das maiores lições com o instrumento. Por algum motivo, aquele solo simplesmente não saía…

Deixei a guitarra encostada algum tempo e tocava só de vez em quando as músicas de sempre pra relaxar. Se você entende o conceito de Flow, de quando o tempo não para e você não percebe de tão envolvido que você está, vou explicar usando algumas palavras do vídeo que vi do Loos no Ciência Todo Dia.

O estado de flow é quando você está executando uma tarefa que não é tão fácil que te deixe entediado, mas também não é tão complexa que te frustre.

E aí, amigos e amigas, era algo que eu não sabia explicar com essa teoria linda, mas sentia no fundo da alma quando eu fechava o olho e começava a tocar aqueles riffs ritmados de acordes com quinta das bandas europeias de Death metal, do Sepultura e Sarcófago e tantas outras.

Com o tempo fui compreendendo como as dinâmicas funcionavam e, mesmo sem estudar, senti que conseguia manter um bom controle de tempos musicais mais esquisitos. E eu adorava especialmente os que eram mais lentos, tétricos e tristes. Não sei até onde minha história de infância tem parte nisso (isso fica pra outra crônica) ou minha paixão desenfreada por ultrarromantismo - em especial Byron, Álvares de Azevedo e o horror do Allan Poe, mas eu gostava de forma muito peculiar das coisas mais tristes do Chopin, das coisas mais tristes, lentas, macabras e pesadas no Heavy metal. As músicas do Black Sabbath e outras de death metal me deixavam maluco.

E foi numa visita a um amigo que só curtia heavy metal que vi uma fitinha chamada “The Angel and the Dark River” que minha cabeça explodiu. Tinha tudo ali que eu amava: o som era denso e grave. Tudo era muito arrastado, o vocalista se lamentava o tempo todo. E tinha um violino (que tempos depois descobri que era uma viola - e essa história você vai ler adiante). Mano, aquele violino…

“Jaimin, que parada é essa mano?”

“É My Dying Bride, eu gosto de ouvir de vez em quando quando tô deprê”.

“E que estilo é esse?”

“É doom metal. É tipo um death metal, só que mais lento e triste”.

“Copia pra mim nessa fitinha?”

E aquilo não parou de rodar mais no meu walkman por longos dias. Ouvi tanto e assimilei tanto o estilo que um dia, trocando as cordas da guitarra, toquei alguns acordes e meu coração parou: “eu acho que isso pode virar minha primeira música própria”.

The First Night nascia junto com algumas outras coisas entrecortadas. Ela tinha tudo que as músicas de Doom que eu curtia tinham: peso, lentidão, melodias tristes. Só não tinha um pequeno detalhe: uma banda pra tocá-la.

O cenário nacional de heavy metal tinha lá suas bandas, e o cenário de bandas aqui no ES era dividido entre uma cena relevante de bandas tirando covers e outra que começava a crescer de bandas fazendo som próprio e tocando em algumas casas de show que abriam seus espaços pra essas bandas, quase sempre visando ganhar dinheiro mais vendendo cerveja e comida do que de fato ingressos. Uma garrafa de Cristal de 600ml era impressionantes R$ 1,20 naquela época.

Nesses shows você tinha de tudo: povo das bandas trocando ideia, gente querendo fazer um som, moleques querendo encher a cara com 10 reais no bolso, gente querendo namorar gente, pessoas querendo curtir, pessoas querendo fazer coisa errada… e no meio daquilo tudo alguns perdidos procurando por outros perdidos para fazer uma banda.

Duas semanas depois, num quarto abafado com uma galera que eu nunca tinha visto (exceto meu bom e velho amigo Tob) nascia o Macula com uma formação quase do tamanho de uma banda de pagode: vocal, baixo, 2 guitarras, batera, teclado E violino (éramos o terror e a prova de qualquer palco e sonorização underground - e claro que isso diversas vezes não dava certo). Não era a primeira banda de Doom no ES, mas certamente era a única que iria começar suas atividades ao vivo naquele momento. A coisa fluiu muito bem e finalmente mostrei pra “amantes do Doom metal” minha primeira música. Errei muito, me recolhi depois de terminar com toda a timidez que me era muito comum e ouvi “Cara, isso ficou muito foda. Já tem letra?”.

Nos apresentamos diversas vezes com outras bandas que admirávamos e conquistamos bastante moral no cenário. Fomos chamados pra tocar em festivais no interior e tudo ia bem até que, como toda banda underground, a vida dos integrantes e tretas internas atropelaram nossos planos de continuar. Saídas (in?)esperadas, confusão e uma bolha de ego de alguns integrantes arrastaram pro fundo uma das bandas que, se tivesse continuado, teria dado certo. (acho…) Isso ficou absolutamente claro quando começamos a procurar por outros integrantes. Alguns “testes” foram emblemáticos: guitarristas de heavy metal que sabiam tocar MUITO mais que a gente não conseguiam entender e se adaptar com aquele ritmo lento, melodias quebradas e a afinação 1 tom e meio abaixo.

“Cara, que tempo é esse. 12/5?”

“Rapaz, eu não sei. A gente só compôs e tocou ela.”

Era esse tipo de pergunta que vinha e eu entendi que precisava estudar um pouco: afinal, nossa banda estava atraindo guitarristas “de verdade” e eu não queria dar mole pra eles.

Me inscrevi na Escola de Música de Vila Velha, uma escola pequena no centro e perto do trabalho. Levei minha surrada EG303, toquei algumas coisas, mostrei o que eu gostava de ouvir e toquei um pouco das músicas da banda. Meu professor foi o sábio Douglas Chagas, então guitarrista da banda que eu viria a conhecer depois e me apaixonar chamada Big Bat Blues Band. Ele me encarou com a seriedade que o Sr. Miyagi olhou pela primeira vez pro Daniel San e falou:

— Leozin, você precisa de duas coisas: uma guitarra com captadores Humbucker e um pedal de distorção igual a esse. (e tira da bolsa um SansAmp GT2)

Até aquele momento eu era apenas um garoto que gostava de plugar a guitarra num amplificador, ligar a distorção no TALO e tocar as músicas que eu gostava e me deixavam no Flow. Fiquei olhando pra cara dele e me perguntando o que isso mudaria de fato.

Economizei muito pra comprar uma Guitarra flying V alemã de uma marca que fabricava tamborins (!!!!!) - salvo engano meu primo, a quem a doei, ainda a tem. Ela era um horror (ponte zoada, cordas altíssimas), mas tinha um visual ANIMAL e, mais importante, o tal do captador humbucker. Pluguei ela direto no meu Marshallzin e … UAU! Agora as abafadas realmente estavam soando melhor.

Economizei mais alguns meses e comprei, via telefone na Made In Brazil - uma loja que ainda existe em SP, para comprar o SansAmp GT2. Ainda me lembro do preço: 480 reais. Isso era uma FORTUNA naquela época. Esperei por semanas pro pedal chegar. Minha mãe recebeu a caixa do carteiro, me entregou e eu abri aquilo como se estivesse abrindo uma caixa de PS5. Minha mãe olhou aquela caixa de metal preta com uns potenciômetros e um botão em cima.

— O que é isso filho?

— É um pedal de guitarra, mãe.

— E o que ele faz?

— Faz mais barulho.

Aquela noite foi mágica. Não apenas o som ficou melhor, mas as notas ficavam soando mais tempo. Nesse dia nasceu minha paixão imensurável por timbres de guitarra.

Sabe aquele momento Eureka! que temos quando descobrimos algo novo e que achamos que não vamos mais viver sem? Foi exatamente isso que aconteceu. Meu professor, com um sorriso de velho sábio satisfeito em ver o pupilo seguindo as dicas, tirou a guitarra dele do bag, tirou o SansAmp dele, ligou na caixa e mandou:

Bora fazer um Blues Metal.

Aquele dia foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Depois disso, várias bandas foram e voltaram (cheguei a tocar em 3 ao mesmo tempo - no mesmo show enquanto eu também cuidava da bilheteria), organizei vários shows (alguns desses ainda estão na memória do underground capixaba), fiz amigos, alguns inimigos provavelmente… mas a minha paixão e busca pelo timbre nunca acabaram.

E nunca faltaram momentos de flow extremo no palco. Mesmo tímido como sou, quando subia (e ainda subo) vem aquela ansiedade e aquele frio na barriga que dão lugar a uma torrente de emoções, lembranças, de total conexão entre mim, a guitarra e o amplificador. O som alto e saturado dos falantes de 12” nas costas, o headbanger durante as partes mais pesadas das músicas, o contato com aquele menino logo à sua frente olhando maravilhado o show e batendo cabeça com você… com uma música que NOSSA BANDA fez.

Isso me sustentou durante muito tempo, mas conforme meu ouvido foi “melhorando”, comecei a sentir que existia algo além de ir pra um palco e tocar as músicas que eu tinha feito e das bandas que a gente gostava.

O timbre sempre esteve lá, presente na minha vida. As bandas diferentes que eu ouvia, os tipos de distorção que eu reconhecia. E lembrei das palavras do meu sábio professor quando falava sobre tipos diferentes de guitarra e amplificadores.

Me tornei um colecionador de guitarras de todo tipo, em especial guitarras Les Paul. Antes de falar delas, um insight: eu demorei MUITO e me culpei MUITO por comprar tantas guitarras e não saber tocar nada fora das minhas próprias músicas e covers. Me senti uma fraude por muito tempo, até que eu entendi e me aceitei como um cara que gosta de guitarra. Eu não conseguia dissociar isso de ser um músico melhor. Claro que isso é importante, mas acima de tudo, música é uma expressão artística e, como todo artista, você terá os que fazem sua arte de forma sublime mas olhando pra fora e outros que farão sua arte pra si mesmos, despreocupados com o julgamento das pessoas.

Depois de muitos anos, me aceitei como um colecionador de instrumentos (mesmo que não toque todos que tenho) e como um buscador incessante pelo timbre perfeito de distorção. E isso fez toda a diferença.

Voltando pra Les Paul, ela tem um dos modelos mais vistos e usados em todos os estilos que precisam de uma guitarra: do Blues ao Metal, do super técnico ao metaleiro de garagem, a Les Paul é uma guitarra bonita, com timbre bonito e muito versátil pra qualquer um.

Cheguei a ter 6 delas. Vendi quase todas, fiquei com duas e hoje tenho umas 3 novamente, todas com nome: Marvada, Joana D’Arc e OB.

Além delas, tenho algumas outras, mas nada me deixa tão confortável quanto elas quando estou tocando.

E a distorção que sai merece outra história que conto depois, porque essa já ficou grande demais. :)

Namastê.