Acordo com a madeira do criado-mudo vibrando, me provendo, no mais belo início de dia, uma irritação subsônica absurda. Apesar da tentativa de mudança, acordar às 6 da manhã é f*da.
Preparo a primeira rodada de ASMR nos fones, porque meditar aos 45 é complexo: não são apenas as pernas que doem, mas tudo formiga também. Os olhos não conseguem se manter inabaláveis. Os monges do Mosteiro de Ibiraçu estariam prontos pra me raquetar com o Kyosaku: mas aqui em casa, ao invés disso, a única coisa que me açoita é o monte de Legos espalhados no campo de visão. E mesmo com combustível pro TDAH, o sono me vence a cada minuto.
Os sons binaurais me ajudaram a concentrar e começar o dia bem. Quer dizer, eu acho que foi isso ou os remédios de ansiedade que vêm quase em seguida, daqui a algumas horas.
Meu moleque acorda logo após, repetindo “Papaíííííí” a cada 6 palavras: é uma redundância que a gente ama no final do dia, mas que de manhã preenche todas as frestas que ainda existiam de vazio, paz e harmonia.
O ritual começa e termina como quase sempre: pão, tapioca, instruções pro dia, discussões acaloradas sobre Pokémons, Star Wars e qual for o hiperfoco da vez. Alguns dias atrás discutíamos longamente a respeito da diferença entre a velocidade do som e da luz. O pai geek/nerd agradece cada momento.
Mouse acionado, garrafa de água cheia, copo com o restin de café da garrafa e bora nóis pra guerra.
Mas antes de dizer o desfecho do dia, deixa eu contar uma história rápida: além de programador, eu cultivei shiitakes há uns 2 anos atrás. Foi um projeto que dizia para todos que era “minha aposentadoria”. Lá no não tão longe ano de 2024, eu tinha plena certeza que comida era algo que, mesmo com o passar dos anos, ainda seria algo essencial e que minha habilidade com tecnologia poderia já estar obsoleta.
Pois bem, é 2026 e não estou mais pensando em mim velhinho, andando a passos lentos no sítio, indo em direção à casa de frutificação de shiitakes. Parece cada vez mais perto isso e, quando fecho os olhos, vejo um robô fazendo isso pra mim: melhor, mais rápido e com mais prática (ao contrário da pessoa com rigidez cognitiva pra algumas coisas que vos fala, ele aprende continuamente).
São 9:40 e minha IA de organização do dia vê minhas agendas, minha lista de tarefas, as mensagens que me mandaram no Slack. Ela me diz quanto tempo eu tenho “sobrando” pra fazer outras coisas, me sugere agendas, envia mensagens pras pessoas como se fosse eu.
São 10:30 e meu report semanal é construído pela IA: é um relatório com muito mais detalhes do que minha dislexia e falta de foco conseguiriam criar. Um acompanhamento com o qual até eu me surpreendi, tamanha a riqueza de detalhes até sobre o que não perguntei. Eu peço pra ela resumir e sinto que agora outro humano, com falta de foco e tempo como eu, conseguirá ler. Isso se não usar uma IA pra fazê-lo por ele.
Abro meu Spotify pra botar uma musiquinha e a playlist me mostra em ordem: Iron Maiden, Pitty, Chopin, Büşra Kayıkçı, Titãs e um monte de coisa de Blues e Jazz. O final de semana do sítio tratou muito bem minhas playlists.
Eu sintonizo, abro meu editor de código, estalo os dedos. Aperto o ícone do microfone e dito para o computador o que quero fazer naquele sistema. Ele entende (ou acha), me fala os planos dele. Eu leio enquanto meu café esfria silenciosamente no copo. Aperto o ícone do microfone e digo “só vai”.
Há alguns dias a IA começou a me chamar de “mestre” e “brother”. Fiquei encafifado pensando que ela deve estar lendo coisas minhas, mas pensei: “quem se importa nessa altura do campeonato com a Alexa ouvindo a gente até peidando escondido dos outros”.
Eu almoço tarde, olhando rapidamente meu Instagram. Entre os canais de inutilidades de Senhor dos Anéis, Guitarra, Música e afins aparece mais um post com várias notícias sobre a IA. O primeiro slide é sempre de alguém com uma cara de desespero ou algum meme que me lembra de forma incômoda a realidade.
Volto, mando a IA novamente ver meu dia. Ela repete o que fez de manhã: precisa, criativa e proativa (até demais às vezes).
O contato DIGITAL com os colegas de trabalho, ironicamente, é o que de mais humano posso experimentar entre um report que eu tenho que revisar, um código que eu tenho que entender e “assinar embaixo”. O erro humano, algo que passou a ser celebrado: não com aquela vibe de outrora de aprendizado contínuo, mas porque sei que não foi uma máquina alucinando entre milhares de tokens e probabilidades estatísticas. O pulso ainda pulsa, dizia a música… ou o poeta. Mas alguém disse.
A porta faz um barulho familiar: ouço passos ao longe e um “Papaíííííí”.
E enquanto isso for feito por ele, seremos (eu e ele) felizes.