Aloha,
Poucos desenhos são tão nevrálgicos como South Park. De zueiras com celebridades até críticas cínicas e com timming perfeito com presidentes (veja a última temporada e entenda o que estou dizendo), eles conseguem tocar em pontos/tabus absurdamente complexos da sociedade (em geral americana), com uma sátira perfeita. As vezes passam do ponto, é verdade, mas é o risco por se viver no limiar da ousadia (e não, não curto os que constantemente passam essa linha a troco da pura e simples liberdade de expressão).
E porque estou começo falando sobre isso: entre outras tantas notícias sobre IA que entopem meu feed atual (disputando espaço e tempo importante com coisas de guitarra, nerdisse e meus hypes de momento), um post de um cara chamado @timothybramlett me chamou a atenção. Vou colocar a parte principal que me fez lembrar de South Park (é, meu cérebro é meio aleatório quando faz sinapses) aqui traduzido.
Esta semana (Nota do editor: era Maio), tanto Sam Altman (OpenAI) quanto Dario Amodei (Anthropic) retrataram-se da afirmação de que “a IA substituirá seu emprego”. Altman: “Eu estava bastante enganado. Estou feliz por estar enganado.” Amodei agora invoca o Paradoxo de Jevons: se a IA fizer 90% do trabalho, os humanos farão os 10% restantes. (Fonte: Fortune)
O link para o artigo da Fortune (muito bacana por sinal) está aqui. ;) E lá tem outras fontes de outras afirmações tão relevantes quanto.
Independente do olhar sobre uma proximidade de um IPO de valuation provavelmente absurdo de trilhões e de que não se deve tratar seus futuros clientes como idiotas, isso tem algo ambíguo: em parte estratégico pra você não afastar esses clientes, mas também pode ser olhado de forma convincente que é, de fato, uma conclusão para o momento atual da IA no mundo… mas …
Voltamos pro South Park. Na temporada 8, um episódio em especial me marcou: pessoas do futuro (de 3045) vem pro nosso tempo em busca de empregos (vi depois que o episódio se chama Goobacks) e que faziam qualquer trabalho por um valor muito menor. Isso causou uma onda de demissões em massa e trabalhadores caricatos entoando “They took our jobs!” com um sotaque muito característico. (aliás, o mesmo personagem que puxa esse bordão aparece em muitas outras situações parecidas. um verdadeiro easter egg ambulante)
Se, à época e de acordo com a Fandom, era um capítulo que claramente fazia uma crítica dura ao contexto de imigração (e de como os americanos lidavam com isso), anos depois e depois de ler o post do Timothy me ponho a pensar: “E se esses forem/fossem, na verdade, nós daqui a 1019 anos quando o trabalho ficou tão escasso que pouco ou nada sobrou para nós, humanos, executarem?”.
Fiz um exercício mental aqui que queria compartilhar.
A IA não se paga ainda
Embora Big techs tenham estado nos holofotes desligando suas licenças de Claude e afins pq estouraram o orçamento, a realidade é que em volta disso você tem uma IMENSA maioria de gente fazendo pirotecnia com IA (leia-se influs, empresas, pessoas, geradores de conteudo, etc) sem conseguir replicar isso num ambiente de produção ou algo realmente rentável. Outra parte enorme tem seu modelo baseado em cima dos grandes modelos que podem, de uma hora pra outra, quebrar ou mudar a precificação: negócios tão firmes quanto uma estaca no brejo.
O que sobram são poucas coisas que de fato fecham a conta e no final quem ganha dinheiro, de verdade, são as grandes de AI, que fazem toda uma midia em torno deles gerar mais e mais pirotecnia pra que você use aquele modelo novo mágico a $10 dolares por 1M de tokens de input.
E eu torço pra isso não chegar em mim como usuário final pois não vivo mais sem meu Gemini me ensinando até como fazer um tabuleiro de xadrez do jeito certo na marcenaria e instalar laminado no quarto.
Antes o problema era a IA alucinando, agora são os agent$ com memória curta e alto cu$to
Resumo rápido: enquanto o inicio da IA só respondia coisas e pesquisava coisas sem conseguir tomar ações relevantes, os Agentes entraram em cena para executar coisas encadeadas e de várias formas diferentes. Agora, um agente no chatGPT pode ver sua agenda, ler emails, mandar emails, escrever documentos e bilhões de outras coisas: isso tudo podendo ser feito com você digitando o que quer e ele construindo isso pra você em tempo real pra você executar quantas vezes quiser depois.
Agora, o que a gente chamava de alucinação (fenomeno que acontece quando a IA se enrola com muita informação e depois de várias trocas de mensagem) migrou pra uma camada que e até mais invisível pra meros mortais.
Se antes você via a IA alucinando na sua frente e podia puxar a orelha dela, com um agente você não só tem que esperar muito mais tempo, como também vai ter mais dificuldade para entender o que aconteceu e pedir pra corrigir. E até lá, TOME TOKEN gasto pra chegar no problema.
IA não tem mão nem tem braços e os robôs devem demorar pra chegar na casa da maioria
Muitos robôs tem aparecido no Youtube e perfis sensacionalistas. É FATASSO que a área evoluiu abruptamente e de forma exponencial desde que a IA generativa virou um produto de prateleira.
Mas daí a achar que você terá robôs por toda parte substituindo pessoas (ou você) nos próximos 5 anos é algo, na minha cabeça, remoto. Ao menos no Brasil.
A IA sofre com julgamentos que um humano com experiencia e bom senso faz em milésimos de segundo
A IA em alguns contextos vai gastar MUITO mais dinheiro do que um humano
O vicio de querer resolver TUDO com AI chegou em todas as áreas. Na minha, em específico, é comum ver devs contando em clima de piada que até pra alterar uma linha que ele mesmo poderia acertar com 5 palavras, ele escrever 12 pra IA “só pra garantir”.
Em geral, pode ter certeza, absoluta, que ele fazer isso seria mega mais barato. E isso está se repetindo em todas as áreas: as pessoas simplesmente não querem mais ler 4 ou 5 parágrafos de contexto e informação (mesmo bem organizada): elas querem que a IA faça isso pra elas.
E isso, é claro, em algum momento vai dar ruim quando o nossos amigos Sam e Dario decidirem que é hora de ganhar algum dinheiro ou depois do IPO os acionistas decidirem isso.
Resumo da ópera
Curto e direto: eu ACHO SIM que essas pessoas de 3045 serão a gente na velocidade que a IA e a robótica avançam, mas como todo futuro distópico e cyber punk, tecnologia de ponta será para poucos. Para nós (digo, pros que estiverem com essa treta pra resolver) restará a re-invenção e adaptação.
Namaste!