Jodorowsky, Desvenlafaxina e os Sonhos.

Nos medicamos para caber no sistema. Mas afinal, o que nos define: o que entregamos à engrenagem ou os sonhos que insistimos em manter vivos?

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Alguns heróis são atemporais e surgem de locais improváveis em momentos nos quais nossa existência parece precisar de uma condução mais poética e profunda.

Aloha,

Os últimos dias não têm sido fáceis: trabalho pra caramba, horas a fio na frente do computador e na minha mesa de trabalho. Além do mouse, do teclado e de canecas de café (às vezes umas duas ou três vazias ou com algum resto no fundo), há o contraste de um menino de 45 anos: uma interface de áudio, guitarras na parede (as mais bonitas que consegui comprar), fones de ouvido, uma caneca da cabeça do Darth Vader, um copo de plástico do Star Wars, várias lapiseiras e dois pacotes de comprimidos: um de Doralgina e um de Desvenlafaxina (com o nome carinhoso, que é até de uma marca, de "Desve"). Ou seja: todos os gatilhos possíveis para disparar várias vezes aquela sensação estranha de que a vida está passando rápido demais sem você ter tempo pra se divertir.

Há algum tempo venho pensando muito sobre como os remédios de ansiedade, que deveriam existir para melhorar nossa qualidade de vida geral, não deveriam ser usados para compensar o descompasso entre quem somos (ou queriamos ser ou devíamos ser) e a engrenagem do que a sociedade exige que DEVEMOS ser. Não é fácil, nem simples, nos desvencilhar (juro que não foi um trocadilho com o remédio) do que carregamos. Família, contas, terapia, comida, supermercado, impostos, financiamentos e tudo mais vão criando um abismo entre o que a gente almejava (ou ainda almeja, em sonhos) ser um dia. É irônico que tenhamos que nos medicar para ter sanidade e ficar bem para ser funcional num contexto que é, provavelmente, o gatilho que nos faz adoecer. É um ciclo complexo e muito difícil de se livrar. Vemos vídeos, lemos livros, observamos exemplos. Tentamos, achamos que vai e, na maioria das vezes, não vai. Não fui sempre assim, mas uma experiência péssima pós-demissão me brindaram com um burn out e uma nova realidade.

Hoje, sequer almocei. Estava consumido pelo flow do coding, duas xícaras grandes de café, uma noite muito mal dormida e 50 mg de Desve. Não, eu não fiquei triste, sequer cansado: passei o dia programando e resolvendo problemas. O que mais curti? Ter uma ideia nova, compartilhar, ver as pessoas terem mais ideias, a gente fazer acontecer junto e todo mundo ficar feliz no final. De forma genuína, até ingênua mas absurdamente transparente, de ser.

No final do dia, parei de enrolar e fui levar algumas coisas para a rua: uma cadeira que vendi há meses e estava fazendo aniversário aqui na minha sala e um pacote de café em grão para um idolo que a vida me deu, talentosíssimo criador de captadores de guitarra. Deixei o café com ele e ele me entregou minha guitarra com novos captadores, lindos de morrer mas principalmente feitos com o maior cuidado do mundo. Me perguntam se sou um guitarrista “sinistro” por investir tanto: eu invisto no sonho daquele menino de 15 anos que não podia ter uma guitarra melhor, mas cuja mãe — professora, viúva, arrimo de família e nordestina — se esforçou para comprar uma para o filho. O sonho dele era só ter uma guitarra, ligá-la em um amplificador e tocar como seus ídolos. Não que ele tenha conseguido até hoje, mas o que são os sonhos, afinal? São eles que definem mesmo a gente, na minha opinião.

Se me perguntarem sobre sonhos, vou falar de tantos que você vai me compreender melhor, como quase ninguém compreende. Por trás de um teórico consumista de besteiras do AliExpress, está um menino que gosta de música, de Star Wars, de novidades eletrônicas e de tudo que o mundo inventa; que ri de piadas de quinta série e faz barulhos estranhos com o filho no banho. Você vai entender por que tenho tantas guitarras e amplificadores, e por que em algum momento da vida sonhei em viver de música, abrindo um studio pub enorme e tomando um dos maiores prejuízos da vida — mas que, mesmo assim, conta com certo orgulho que tentou.

Você vai entender por que tenho vários fones de ouvido e projetos com Arduino e Raspberry em caixas bem guardadas no fundo de alguma gaveta. Talvez compreenda por que sempre fui o cara que, quando alguém é mandado embora por motivos alheios à sua capacidade e produção, corre atrás para tentar ajudar com o que tem. Possivelmente vai entender por que meu sonho utópico de empresa é aquela em que ninguém tem cargos nem avaliações formais, mas todos sabem o que têm que fazer, na melhor aplicação possível da visão de sistemas, entropia e tudo mais.

Sem você ouvir meus sonhos e de onde eles vieram, vai sempre achar que sou um cara ingênuo, que ajuda demais, é bonzinho demais, às vezes até fútil.

Me reservei o final do dia para comer um X-Bacon com maionese e tomar uma Coca de 600 ml: talvez isso seja o mais próximo que consigo chegar hoje de uma infância que, embora humilde e cheia de restrições (físicas e financeiras), tinha mais esperança de que sonhos viravam realidade com mais facilidade — como era aquele hambúrguer com salada da tia no final da noite, na volta do shopping (onde íamos sem NADA no bolso, a não ser a vontade de ver os amigos e compartilhar os sonhos uns dos outros — e isso era mais do que suficiente).

E nessa, me vi assistindo a um documentário sobre o chileno Alejandro Jodorowsky, um cineasta que sonhou com uma adaptação tão ambiciosa de Duna (sim, esse mesmo livro adaptado recentemente e que, inclusive, é espetacular) que nenhum estúdio topou fazer em 1970 por $15MM (uma grana ABSURDA pra época). Embora frustrada, a tentativa, a visão e a paixão de Jodorowsky, materializadas nos arquivos que ele produziu para tentar rodar o filme, viraram a semente para nada menos que Star Wars, Alien e tantos outros. Mais que um documentário sobre o processo, é um mergulho na alma de um sonhador.

Jodorowsky me fez ter uma experiência além do meu X-Bacon saudosista: ele me fez entender que sonhar nem sempre será sobre alcançar ou materializar. Sonhar é sobre deixar um legado do qual você se orgulhe enquanto você tentou — para que os outros lembrem, se inspirem, melhorem e continuem, eles mesmos, sonhando e tentando.

Pra fechar, uma parte do filme em que o próprio fala sobre isso.

É preciso ser como um poeta. Seu filme deve ser exatamente como você pensa e como quer. Não aceite conselhos para mudar isso ou aquilo desta pessoa ou aquela. Não! O filme tem que ser como eu o sonhei. O filme tem que ser exatamente como sonho que seja. É um sonho. Não mude meu sonho.Acredito piamente que este filme não foi realizado na América porque tinham medo dele. Tinham medo de sua imaginação, de sua mente, do que faria. Acredito que é o verdadeiro motivo para não ter sido feito. Estavam com medo.Este sistema nos escraviza. Sem dignidade. Sem profundidade. Com um demônio em seu bolso. Este incrível dinheiro que está em seu bolso. Este dinheiro. Esta merda. Este nada. Este papel sem nada dentro.Filmes têm coração. Têm mente. Têm poder. Têm ambição. Eu quis fazer algo assim. Por que não?

Namastê.