Salve people,
Vamos iniciar hoje uma pequena jornada à terras que possivelmente muita gente só viu/leu em sites especializados e muito pouco comentadas em PHP: a terra do desenvolvimento orientado a testes, ou TDD.
Se você não sabe ou nem faz idéia do que é TDD, dê uma procura no Google pois existem dezenas de sites muito bacanas destilando idéias e tudo mais sobre isso.
Em poucas palavras, TDD (Test Driven Development) é um técnica de desenvolvimento de software que nos diz que devemos escrever os testes antes de escrever o código da aplicação propriamente dito.
Inicialmente isso parece meio louco: afinal, você sempre testa DEPOIS de escrever seus programas ou durante, enquanto debuga tudo, correto ? Mas com o passar do tempo, a verdadeira natureza e vantagem do TDD, quando aplicada corretamente, se faz presente.
Você se torna capaz de antecipar a detecção e correção de várias falhas, reduzindo dramaticamente o tempo gasto com correções em cima de implementações muito complexas já praticamente no final do seu cronograma.
Hoje em dia, existem várias frameworks que auxiliam nessa tarefa de escrever testes. O foco aqui é algo que poucos sites (principalmente em português) abordam de forma prática que é o uso da SimpleTest, uma framework para testes unitários que vem ganhando o espaço antes ocupado pelo PHPUnit.
No decorrer dos próximos posts sobre o SimpleTest, você poderá adquirir um pouco de conhecimento que poderá ser útil em seus futuros projetos. Então, vamos simbora.
Instalando o SimpleTest
A instalação do SimpleTest em si é muito fácil.
- Baixe a versão mais atual do SimpleTest no site http://www.simpletest.org (a versão que usaremos nessa sequência de tutoriais é a 1.0.1). A framework é composta por uma pasta simples;
- Descompacte o arquivo dentro de sua aplicação. Para fins de organização, vamos criar uma pasta “tests” na raíz de nossa aplicação e descompactar o zip/tar do SimpleTest lá: ao descompactar você verá uma pasta chamada simpletest sendo criada.
Em tese, nossa aplicação pode ter qualquer estrutura de diretórios. O SimpleTest funciona tanto com functions como com classes. Vamos abordar o uso de classes, dado que o TDD é amplamente usado em sua maioria em soluções OO (Orientadas a Objeto) e acho que já passou da hora da comunidade PHP pensar OO.
Partindo desse pressuposto, vamos criar a pasta “classes” na raíz de nossa aplicação: lá iremos botar todas as nossas classes que serão usadas nos testes.
Teremos então, uma estrutura de arquivos como abaixo:

A pasta app_tdd é a pasta onde está nossa aplicação: uma pasta criada dentro do meu htdocs (raíz do Apache).
Se o seu servidor web estiver instalado com configurações padrão, provavelmente você poderá acessar usando: http://localhost/app_tdd
Nosso problema: uma calculadora
Com o SimpleTest “instalado” em nossa aplicação e nossa estrutura de diretórios resolvida, vamos escrever nosso primeiro caso de teste.
O cenário de nossa aplicação é uma calculadora: nossa calculadora conseguirá efetuar apenas a operação de soma.
Com uma análise rápida do problema, já nos vem à cabeça que:
- Uma classe chamada “Calculadora” com um método chamado “soma”;
- Nosso método soma recebendo dois números
- Nosso método retornando o valor da soma entre os dois números
Nossa abordagem não TDD seria: vamos fazer a classe, implementar o método e depois testa-lo em uma página teste. Correto ? Num primeiro momento isso seria ótimo: afinal, o código e complexidade das classes inicialmente são lindos.
Mas imagine agora sua aplicação crescendo e crescendo: classes extendendo e usando outras classes. Você extende a Calculadora, outra classe utiliza o método soma e você vai testando apenas “o que vem depois”.
Num dado momento, você tem um resultado incorreto de soma: uma entrada incorreta de parâmetros, um deles ser uma letra e não um número, termos uma passagem de um objeto ao invés de um número propriamente dito … De quem é a culpa ? Da classe nova, que esqueceu de filtrar a entrada de parametros ? Do designer, que esqueceu de limitar a entrada dos valores no form para apenas números ? Do outro programador, que foi descuidado e não validou se os dados passados eram realmente números antes de chamar a soma ?
Enfim, temos N cenários onde a detecção do erro pode ser muito custosa, seja pelo método para encontra-lo (que varia do debug minucioso ao “achismo”) e/ou pelo custo em termos de tempo para concerta-lo. Tudo isso pode gerar um custo/prejuízo que seria reduzido com a implementação do pensando TDD.
Pensando primeiro em testes
Mentalize: “Quais as situações que podem quebrar meu método soma? Se acontecer, como devo tratar esse erro ?”
Com base nesse pensamento, podemos deduzir:
- Para somar, nossa calculadora terá que receber sempre dois números;
- A soma sempre ocorre entre dois números, nunca entre letras, objetos ou qualquer coisa que não seja exatamente um número;
- Se algo der erro, devo retornar falso;
Interessante! Não implementamos nenhuma linha de nossa solução e já sabemos:
- Que vamos precisar de uma classe (Calculadora) com um método de soma;
- Sabemos que o método deverá receber dois parâmetros que deverão ser sempre números;
- Que se for passado qualquer coisa que não sejam dois números, eu devo retornar falso;
Bom, então vamos implementar a classe ? Não, pequeno gafanhoto: vamos implementar primeiro os testes, porque é com base neles que vamos ter certeza que nossa classe se comportará exatamente como pensamos que ela deve se comportar sob os mais diversos cenários.
Escrevendo nosso primeiro teste
Implementar um teste com SimpleTest é, como o nome já diz, “simples”.
Vamos criar todos os nossos testes dentro da pasta tests. Para cada classe que tivermos que testar, vamos criar um caso de teste (unit test case) que será representado em um arquivo php.
Então, nosso primeiro caso de teste será o calculadora_test.php. O nome do arquivo não tem um padrão de nomenclatura, mas por convenção usa-se sempre nomedaclasse_test.php.
calculadora.php -> calculadora_test.php
A estrutura inicial do nosso arquivo calculadora_test.php será a seguinte:
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| require_once('simpletest/autorun.php');
require_once('../classes/calculadora.php');
class TestOfCalculadora extends UnitTestCase {
// os testes vão aqui ;)
} |
Pronto! Nosso caso de teste da classe Calculadora está feito. Para testa-lo, vamos apontar o browser para http://localhost/app_tdd/tests/calculadora_test.php. O resultado será:
1 2 3
| Warning : require_once(../classes /calculadora .php ) [function.require -once ]: failed to open stream : No such file or directory in /Applications /MAMP /htdocs /app_tdd /tests /calculadora_test .php on line 4
Fatal error : require_once() [function.require]: Failed opening required '../classes/calculadora.php' (include_path ='.:/Applications/MAMP/bin/php5/lib/php:/Users/leohackin/PEAR') in /Applications /MAMP /htdocs /app_tdd /tests /calculadora_test .php on line 4 |
Ops! Não criamos nossa classe ainda, por isso obtemos esse erro. Quando disse que escrevemos testes antes de implementar nossa lógica, estava falando sério. =)
Vamos criar nossa classe Calculadora então.
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| class Calculadora {
function soma($a,$b) {
}
} |
Legal, agora vamos acessar nosso caso de teste denovo.

Uhu! Funfou!!!
Analisando o código:
- fazemos o include de dois arquivos:
- o arquivo autorun.php é o arquivo que faz a “mágica” acontecer: é ele quem roda os testes e exibe os resultados, portanto deverá sempre estar no seu caso de teste;
- o outro arquivo é a classe que desejamos usar no teste, no caso calculadora.php
- Criamos uma classe chamada TestOfCalculadora extendendo UnitTestCase, que será a classe que o SimpleTest usará para fazer o teste. É obrigatório que a classe inicie com o nome “test” para que o SimpleTest execute automaticamente a mesma como um caso de teste. Existe uma forma de faze-lo sem iniciar o nome com “test”, mas isso não vem ao caso agora.
Maneiro né ? Mas como puderam notar, nosso caso de teste não testa nada ainda. Hahahah
Vamos adicionar agora um teste: o teste vai verificar se a soma está realmente “somando” dois números. Para isso, devemos adicionar um método à nossa classe de testes. Vamos chamar esse teste de “testSomaDoisNumerosInteiros“, onde vamos passar dois números inteiros esperando que a soma deles esteja correta.
Usar nomes grandes assim no nome do método são uma boa prática, já que deixam os testes mais legíveis na hora de rodar o caso de teste.
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| require_once('simpletest/autorun.php');
require_once('../classes/calculadora.php');
class TestOfCalculadora extends UnitTestCase {
function testSomaDoisNumerosInteiros() {
$calculadora = new Calculadora();
$this->assertEqual($calculadora->soma(1,1), 2);
}
} |
Como visto, temos nosso método testSomaDoisNumerosInteiros que instancia nossa classe Calculadora e depois executa um método chamado assertEqual. Esse método é o responsável por testar nossa soma. Ele significa:
Verifique se a chamada $calculadora->soma(1,1) retornará um resultado igual à 2
Se a chamada retornar qualquer coisa diferente de dois, nosso teste irá falhar, indentificando que algo de podre está acontecendo em nosso método soma.
Se rodarmos esse script teremos enfim:

Tivemos uma falha. Traduzindo a mensagem de forma prática:
O seu teste testSomeDoisNumerosInteiros, do caso de teste TestOfCalculadora, falhou porque NULL (que foi retornado pela chamada ao nosso método soma) não é igual a 2 (que seria nossa resposta esperada).
A resposta para isso é que ainda nem implementamos nosso método soma. Mas vejamos que nesse ponto já sabemos exatamente como deve ser comportar nosso método para o funcionamento com dois números.
Vamos implementar nossa classe então:
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| class Calculadora {
function soma($a,$b) {
return $a + $b;
}
} |
Com nosso método agora implementado, vamos executar nosso caso de teste denovo.

Agora sim! Temos um caso de teste funcional que testa uma classe implementada. Parabéns por chegar até aqui.
Nesse ponto, já temos conhecimento suficiente para escrever vários casos de teste para nossas classes. Um caso de teste pode conter vários testes diferentes: cada teste é feito através de um método da classe do caso de teste.
Revisando aquelas possibilidades de cenário que poderiam “quebrar” nossa calculadora, já testamos se a soma está correta. Agora, podemos testar as possibilidades que podem gerar um erro na calculadora.
Uma delas é se passarmos letras no lugar de números: haviamos combinado que nessa situação, devolveriamos falso para o resultado, correto ? Então, vamos escrever o teste: vamos chama-lo de “testSomaNaoNumeros“:
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| function testSomaNaoNumeros() {
$calculadora = new Calculadora();
$this->assertEqual($calculadora->soma(1,'A'), false);
} |
Adicionamos essa função à nossa classe. Rodamos nosso teste novamente e …

Previsivelmente, temos um erro pois nosso método soma ainda não verifica se os parâmetros recebidos são números válidos. Ai você irá pensar:
Mas eu vou escrevendo os testes e vou implementando toda a minha lógica de negócio ao mesmo tempo ?
A TDD tem uma característica bacana, que anda de mãos dados ao refactoring: a TDD nos diz que devemos SIM escrever os testes primeiro e fazer as classes “passarem no teste” usando o mínimo de código possível: se a lógica for complexa, retorne uma resposta “hardcode” para “enganar” o teste e depois faça o refactory do código.
O refactory deve ser feito apenas depois de todos os testes serem feitos, pois nesse ponto você terá certeza de como o funcionamnento de sua classe atenderá a todos as respostas que são requisitadas nos testes como “corretos”.
Pensando nisso, vamos fazer nosso método soma “passar” no teste:
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| class Calculadora {
function soma ($a,$b) {
if (is_int($a) && is_int($b)){
return $a + $b;
} else {
return false;
}
}
} |
Agora, vamos rodar nosso teste.

Blz! Nosso teste passou, mas testamos apenas se os valores são inteiros e se forem, efetuamos a soma. Se não forem, a gente retorna false, como nosso teste pediu. Podemos depois refatorar isso: verificar se o valor é uma string com um número dentro e por ai vai.
Finalizando
Você pode estar se perguntando: “Uai, mas podemos ter muito mais ocasiões que podem quebrar a soma! Podemos também extender algumas funcionalidades e exibir mensagens de erro”.
Tivemos uma amostra do que é o SimpleTest em seu cenário mais simples: apesar do tamanho do post, o conceito e a aplicação são bem simples como puderam ver.
Além do assetEqual, a SimpleTest tem um set de ações enorme de validações, além de recursos mais avançados, como suites, mocks e web tests que veremos em breve.
Crie outras classes, pense nos testes, escreva seus casos de teste e vá executando: com a prática isso vai ficar tão automático que o ganho com a diminuição dos testes e bugs no final da aplicação vão ser notórios.
Testes nos tornam programadores melhores. Pense nisso.
Algumas coisas para se pensar quando começar a abordar isso:
- Não precisamos escrever TODOS os testes: é completamente normal se esquecermos algo ou houver alguma necessidade de mudança de negócio do cliente que nos fará escrever novos testes ou re-escrever os existentes. Tenha em mente que o TDD é para ajudar e não para ser mais uma fase carrancuda e intransponível no desenvolvimento;
- A análise para chegar aos casos de teste faz bem ao início do projeto: com essa abordagem, você pode fazer perguntas ao cliente (e ele a você) sobre algumas coisas que possívelmente só apareceriam no final do projeto gerando assim muito re-trabalho;
Bom, por enquanto é isso pessoal. No próximo post falaremos um pouco sobre agrupamentos de teste e partir para um exemplo mais complexo.
Espero que tenham gostado do post.
Simbora!